Atmosfera
corresponde a uma camada gasosa que envolve o globo terrestre. Os
principais gases atmosféricos são: o N2 (que responde por 78% de toda a massa
atmosférica), o O2 (abrange cerca de 20%) e o CO2 (cerca de 1%) (figura 1).
Figura
1: Porcentagem dos gases componentes da atmosfera.
Composta
por quatro camadas (figura 2), cerca de 80% da massa atmosférica se encontra na
troposfera, que é a camada em contato com a superfície do planeta. As outras
camadas são: a estratosfera, onde está a maior concentração de O3 (camada de
ozônio - ozonosfera); a mesosfera, onde predomina o oxigênio, e a ionosfera,
marcada pela presença de íons.
Figura
2: Camadas da atmosfera.
A
atmosfera atua sobre as substâncias poluentes através de dois fenômenos
fundamentais: o transporte e a difusão. Sendo que as concentrações de poluição
do ar são resultado de interações entre os padrões climáticos locais, e as características
de circulação atmosférica: o vento, a topografia, as atividades humanas
(transporte e geração de energia elétrica a carvão) e, as respostas humanas às
mudanças do tempo (o aparecimento de períodos de frio ou quente, que pode
aumentar o aquecimento nas casas e,
portanto, precisa de energia).Os
primeiros estudos que examinaram a associação entre poluição atmosférica e seus
efeitos para a saúde ocorreram a partir da primeira metade do século 20, relatando
um aumento significativo na morbidade e mortalidade em cidades de países desenvolvidos.
Mais recentemente, um número crescente de estudos em países em desenvolvimento
também mostrou que a poluição do ar exerce uma grande pressão sobre o meio
ambiente nessas áreas, com um grande potencial impacto na saúde da população,
especialmente nas grandes áreas urbanas. A Organização Mundial de Saúde - OMS
divulgou que 3 milhões de pessoas morrem anualmente devido aos efeitos da
poluição atmosférica.Entre
os poluentes atmosféricos estão o monóxido de carbono, o dióxido de enxofre, os
óxidos de nitrogênio e os particulados (quadro 1). Estes poluentes advêm
principalmente da queima de combustíveis fósseis, particularmente das usinas
elétricas a carvão e automóveis movidos por gasolina.
Poluente
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Fonte
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Processos
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Efeito
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CFC’s (cloro, flúor e
carbono)
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Atividades humanas
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Sistemas de
refrigeração, aerossóis,...
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Destruição da camada
de Ozônio e contribuição com o efeito estufa
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Óxido de Nitrogênio
(NOx) e Dióxido de Enxofre (SO2)
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Atividades humanas
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Combustão – veículo e
indústrias
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Afeta o sistema
respiratório e causa chuvas ácidas
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Atividades Naturais
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Descargas elétricas -
raios
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Dióxido e Monoxído de
Carbono (COx)
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Atividades humanas
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Combustão
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Contribuição com o
efeito estufa
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Atividades Naturais
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Incêndios florestais
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Quadro 1: Resumo de alguns
poluentes, sua fonte, processo onde ele é usado e seu efeito na atmosfera.
A
poluição atmosférica, mesmo apresentando concentrações abaixo dos níveis
permitidos pelos órgãos competentes, tem afetado de forma significativa a vida
dos seres terrestres e, embora o mecanismo biológico específico ainda esteja em
estudo, diversos autores sustentam que a relação entre poluição atmosférica e
efeitos deletérios na saúde da população é causal.A emissão de material particulado na atmosfera deriva principalmente
de veículos, indústrias e da queima de biomassa. As fontes estacionárias e
grandes frotas de veículos concentram-se nas áreas metropolitanas localizadas
principalmente no sudeste do Brasil, enquanto a queima de biomassa ocorre em
maior extensão e intensidade na Amazônia Legal, situada ao norte do país.
Segundo o inventário brasileiro de emissões de carbono, 74% das emissões
ocorrem através das queimadas na Amazônia, em contraste com 23% de emissões do
setor energético.Na área rural do país podemos utilizar o exemplo da queima de
cana-de-açúcar, biomassa que por conta do consumo de álcool nos carros, tem
aumentado sua produção. Da produção brasileira, só 25% têm colheita mecanizada
e o restante é queimado antes da colheita manual. A colheita e o transporte da
cana queimada são mais baratos do que os custos relacionados à cana verde
(figura 3). Além disso, a produtividade de cortadores manuais em cana queimada
chega a ser o dobro do verificado na cana verde. Portanto, eles também preferem
cortar cana queimada, apesar de ficarem expostos a maiores níveis de poeira e
fuligem. O problema da queima é que além de afetar os trabalhadores diretos,
aumentando a tendência de hospitalizações por asma nos meses de queima de palha
de cana, afetam toda a população no entorno.

Figura 3: Poluição do ar na cidade e Queimada de cana-de-açúcar.
Na
maioria das áreas urbanas o ar contém uma mistura de poluentes, podendo cada
um, aumentar a vulnerabilidade das pessoas aos efeitos dos outros poluentes
(figura 4). A exposição ao monóxido de carbono causa lentidão dos reflexos e
sonolência, uma vez que suas moléculas se ligam à hemoglobina, reduzindo a
quantidade de oxigênio que transportam os glóbulos vermelhos. O dióxido de
nitrogênio pode agravar a asma e reduzir as funções do pulmão, como também
tornar as vias respiratórias mais sensíveis a substâncias alérgicas. O ozônio
também causa inflamação do pulmão, reduzindo suas funções e capacidade.
Figura
4: Poluição do ar em áreas urbanas.
Estudos evidenciam um aumento consistente de doenças
respiratórias e cardiovasculares e da mortalidade geral e específica associadas
à exposição a poluentes presentes na atmosfera, principalmente nos grupos mais
susceptíveis, que incluem as crianças menores de 5 anos e indivíduos maiores de
65 anos de idade. Nestes grupos
etários, acréscimos no número de internações por doenças respiratórias têm sido
associados a acréscimos nos níveis de poluentes atmosféricos urbanos.
Entretanto, nos idosos, além de promover aumento de doentes e de mortes por
doenças respiratórias, os poluentes do ar apresentam efeitos também no
adoecimento e morte por causas cardiovasculares.
Figura
5: Doenças do trato respiratório.
Particulados
menores, especialmente aqueles com 10 micrômetros de diâmetro (1 micrômetro é
igual a uma milionésima parte de um metro) ou menores, podem se alojar nos
alvéolos do pulmão. Quando as pessoas
inspiram particulados e ozônio nas concentrações normalmente encontradas em
áreas urbanas, suas artérias se comprimem mais, reduzindo o fluxo sanguíneo e o
suprimento de oxigênio ao coração. É por este motivo que a poluição atmosférica
agrava as doenças cardíacas e a asma.Os
efeitos adversos da poluição do ar para a saúde incluem não apenas os resultados
clínicos, tais como internações hospitalares, perda de função pulmonar e
mortalidade, mas também reduz a qualidade de vida, interferindo nas atividades
diárias.Mas e qual é a saída então? As soluções para a poluição atmosférica
urbana não são difíceis de discernir. As pessoas podem reduzir o uso do
automóvel utilizando bicicletas, transporte de massa ou simplesmente andando, e
podem utilizar carros mais eficientes no consumo de combustível. Comissões de
planejamento urbano e governos regionais podem redirecionar as verbas dos
transportes para opções de transporte de massa: metrô, ferrovia ou ônibus
expressos.Vários
países têm programas de qualidade do ar, incluindo o Brasil. A Organização
Mundial de Saúde (OMS) também recomenda níveis aceitáveis padrões
de poluentes atmosféricos e inclui políticas de sua agenda para incentivar o
controle da poluição.
É
importante ressaltar que em 1988, a organização Meteorológica Mundial (OMM) e o
Programa das nações unidas para o Meio ambiente (Pnuma) estabeleceram o
Intergovernamental Panel on Climate Change [Painel Intergovernamental de
Mudanças Climáticas] (IPCC). O IPCC a partir de trabalhos científicos avaliaram
o clima e os cenários de mudanças climáticas para o futuro, concluindo que as
mudanças climáticas são um problema ambiental real e global; sendo a
interferência humana um fato, havendo assim a necessidade de cooperação
internacional para uma solução dos problemas. A partir de então, os 192 países
signatários da Convenção do Clima, como é conhecida, passaram a se encontrar
regulamente para continuar as discussões na Conferência das Partes (COP).
A Conferência das Partes (COPs) decide sobre
aplicação e funcionamento das diretrizes do tratado, a implementação dos
mecanismos previstos e o cumprimento das metas estabelecidas.
Durante
a COPs são tomadas decisões que estabelecem protocolos (dentre eles o Protocolo
de Kyoto criado durante a COP-3 no Japão, que define metas para redução da
emissão dos GEE pelo os países desenvolvidos), programas de trabalho ou ainda
metas específicas a serem atingidas pelos países. Na COP-17, realizada em 2011
na África do Sul, 194 países se reuniram para negociações da Convenção do Clima
da ONU. Num dos resultados, a "Plataforma de Durban”, todos os países
prometeram cortar emissões, porém somente se iniciará em 2020.
Segundo o
relatório do IPCC as atividades humanas estão
aumentando a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. A queima de
combustíveis fósseis e mudanças no uso e cobertura da terra são os principais
causadores e também os principais motivos para que grandes potências mundiais
relutem para assinar acordos de uso sustentável dos recursos naturais, pois
isso significaria uma mudança nos padrões atuais de economia para buscar
caminhos alternativos.
O ordenamento do solo e outros instrumentos reguladores podem ser
utilizados para encorajar empreendimentos de maior densidade, condizentes com o
transporte de massa. E os países podem deslocar a geração de eletricidade do
carvão e gás natural para energia solar e eólica, alavancando subsídios
governamentais e incentivos fiscais para a energia limpa, ao invés de continuar
a subsidiar os combustíveis fósseis. Alguns
países têm adotado o rodízio de veículos como uma das formas de diminuir os
níveis de poluição atmosférica.
Nas áreas rurais é necessário reduzir o número de queimadas.
Como exemplificado acima, há proibição da queima de cana-de-açúcar, e isto
representa um dilema socioambiental. Ao mesmo tempo que a sua proibição pode
contribuir para melhoria da qualidade do ar, a sustentabilidade ambiental e a
prevenção de doenças, ela pode acabar com empregos no campo.
Fontes Bibliográficas:
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o trânsito. Fonte:
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O.; Saldiva, P. P. H. N.; Braga, A. L. F. Relação entre poluição atmosférica e
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